Bruno Sousa é o administrador executivo do Grupo Auto Júlio

O filho mais velho de António Júlio, Bruno Sousa (42 anos), é atualmente o administrador executivo do Grupo Auto Júlio, sendo responsável em todas as empresas. Do pai herdou, sem dúvida, uma grande capacidade de trabalho e uma visão sempre centrada no futuro, antecipando problemas e criando soluções.
“Ser uma empresa familiar tem algumas desvantagens, mas também tem vantagens importantes. A grande vantagem é que se podem tomar decisões rápidas, com duas ou três pessoas”, sublinha nesta entrevista.
Bruno Sousa começou ainda jovem a trabalhar na Auto Júlio, durante as férias de Verão, mas o seu primeiro emprego a sério, depois de fazer a tropa, foi na secção de peças da oficina, no polo de Leiria. Rapidamente conquistou um lugar importante na estrutura e em 2002 foi transferido para a sede, para gerir a Auto Júlio das Caldas.
Desde essa altura, a sua influência foi crescendo cada vez mais, trabalhando sempre lado a lado com o seu pai. Bruno Sousa tem estado nas decisões mais importantes, que permitiram que o Grupo Auto Júlio chegasse a uma dimensão que o seu pai nunca previra, quando criou a empresa, em 1987.

Pergunta: Quais são as suas funções no Grupo Auto Júlio?
Bruno de Sousa: Sou administrador executivo de todas as empresas e de todos os negócios do Grupo Auto Júlio.
P: Quais foram os setores do Grupo pelos quais já passou ao longo da sua carreira?
R: Já passei por todos os setores e por várias funções. Comecei por trabalhar durante as férias escolares, como rececionista e também como estafeta. Depois de sair da tropa, comecei mais a sério, na secção de peças da oficina, no polo de Leiria.
Na altura, o meu pai tinha adquirido as instalações em Leiria e penso que, quando me enviou para lá, a intenção era que fosse os olhos dele na empresa.
Depois passo da secção de peças para chefe de vendas e começo a trabalhar com pessoas que já tinham 40 anos de casa, tendo eu pouco mais de 20 anos. Foi uma fase mais complicada, porque dei um “salto” grande em termos de funções.
Nessa altura, a então Auto Júlio Leiria (que funcionava como empresa autónoma) passou a ser um dos maiores concessionários da Mitsubishi no país. Em 2002 vim para a sede, para gerir a Auto Júlio das Caldas e começo a tomar contato com o negócio dos combustíveis. A partir dessa data o Grupo foi crescendo muito.
Entre 2002 e 2010 houve um crescimento brutal na faturação, depois atravessámos a crise e devido às dificuldades no setor automóvel sofremos algumas quebras, mas a partir de 2013 voltámos a crescer e superámos o pico anterior.
P: Ao longo da história do Grupo, quais foram, para si, os momentos mais importantes?
R: Penso que a minha vinda para as Caldas da Rainha foi muito importante. A determinada altura, foi alterado o formato contratual com a Petrogal. Cortámos o cordão umbilical, embora sempre “casados” com eles. A relação passou a ser diferente e isso foi um momento-chave. Havia algumas cláusulas no contrato que anteriormente existiam, que nos amarravam a um não crescimento.
Recentemente, foi importante a aquisição de três postos da SOPOR e da empresa Galp Servi Express. A compra da Galp Servi Express abriu-nos muito os horizontes na área dos combustíveis.
Acredito que a compra da Alferpac, este ano, também irá contribuir para um maior sucesso do Grupo.
P: Qual a importância dessas experiências que foi tendo?
R: Penso que é algo que deveria fazer parte da educação de qualquer jovem: começar por aprender várias profissões e em várias funções.
P: Foi difícil conquistar o seu lugar no Grupo?
R: Sim, foi. Algo que eu nunca gostei foi de ser o filho do patrão. Sempre quis que me reconhecessem pelo trabalho desenvolvido.
Claro que tive a oportunidade por ser o filho do proprietário da empresa, mas depois penso que conquistei rapidamente o meu espaço, à custa do muito trabalho. Sempre trabalhei muito, até sábados e domingos, 12 horas por dia.
P: Qual a sua primeira recordação do trabalho do seu pai, enquanto criança?
R: Lembro-me de ir com ele ao Tramagal, talvez em 1982, buscar carros, quando ele era vendedor de automóveis. Já nessa altura acompanhava o meu pai.
P: O que aprendeu com o seu pai em termos profissionais?
R: Acho que aprendi as coisas boas. Temos um feitio um pouco parecido, mas somos pessoas diferentes. Tentei aprender com ele a sua visão para o negócio.
P: O setor dos combustíveis tem um peso cada vez maior no Grupo. Há pouca dependência do setor automóvel?
R: A dependência existe porque nós temos muitas pessoas a trabalhar no setor automóvel. Em termos de recursos humanos, são a maioria no Grupo. Antes da entrada da Alferpac no Grupo, representavam 45% do total de recursos humanos.
P: Porquê o investimento na Alferpac?
R: Nós acreditamos que o setor automóvel vai mudar muito. Embora nos próximos 10 anos deva continuar a crescer, principalmente porque no mercado nacional o número de vendas desceu tanto que penso que deverá estabilizar em cerca de 240 mil unidades / ano e isso representa um crescimento de vendas em Portugal.
Estamos à beira de uma revolução no mercado automóvel por causa das viaturas elétricas.
Gradualmente o mercado vai mudar muito em termos de manutenção das viaturas. É que um carro com motor de combustão tem 2.000 peças móveis e um carro elétrico tem cerca de 20.
Por isso, prevemos que a partir de 2030 este setor irá ter grandes desafios.
Com certeza que irão surgir novas formas de pensar o negócio e outras soluções, mas o mercado nunca terá o formato atual. O número de “players” será menor. Será tudo diferente.
Há muitas marcas que estão a chegar aos 100 anos e que dizem que todo esse tempo foi muito emotivo, mas pensam que os próximos 10 anos serão ainda mais emotivos.
Estas alterações são válidas para os automóveis e, mais tarde, para os combustíveis.
Acreditamos que o setor das telecomunicações e da eletricidade, ao contrário dos outros dois, terão tendência a crescer.
P: O que vos interessou mais na Alferpac?
R: O que nos interessou mais foram as pessoas que lá estão. É uma empresa que tem recursos humanos muito bons. Eles têm uma experiência e conhecimentos muito fortes na área da energia.
A eficiência energética tem uma importância cada vez maior e tanto as pessoas, como as empresas e os organismos públicos terão que alterar a forma como consomem energia. Hoje em dia, gasta-se o dobro ou triplo do que seria necessário. As pessoas queixam-se que a energia está cara, mas não investem na redução dos seus consumos.
Atualmente há formas de reduzir substancialmente os consumos de eletricidade, em que a recuperação de investimento pode ser conseguida em dois ou três anos.
Para além disso, a Alferpac também tem clientes de grande dimensão, como a EDP, a Vodafone ou Águas de Portugal, com quem mantemos relações de grande confiança.
Pensamos que esta foi uma excelente oportunidade para que daqui a 10 anos consigamos fazer crescer ainda mais o Grupo Auto Júlio, diminuindo o peso dos setores dos automóveis e dos combustíveis.
P: Este investimento na Alferpac, está relacionado com a estratégia que o Grupo tem sempre seguido de antecipar problemas e entrar em novas áreas?
R:Sim, nós começámos pelo setor automóvel, a seguir pelos combustíveis,  depois pelas telecomunicações e tecnologias de informação, e agora pelo setor energético.
P: Isso permitiu-lhes atravessar algumas crises, quando outras grandes empresas acabaram por fechar portas?
R: Sim, grande parte por causa do trabalho de todos, com a nossa gestão e um pouco de sorte. Houve empresas que investiram no setor automóvel e da construção, precisamente as áreas que passaram pelas piores adversidades.
Ser uma empresa familiar tem algumas desvantagens, mas também tem vantagens importantes. A grande vantagem é que se podem tomar decisões rápidas, com duas ou três pessoas. Isso permite-nos, em sentido figurado, virar o leme do barco para a direita ou para a esquerda, consoante a nossa visão na altura. Essa agilidade é uma das características que o Grupo Auto Júlio mais capitaliza. Nós somos muito ágeis face ao mercado.
P: Outra característica que faz parte do ADN do Grupo é a afetividade. São uma empresa familiar não só por serem geridos por elementos da mesma família, mas também pela relação que mantêm com os funcionários?
R: Sim, efetivamente a empresa é gerida pela família “de sangue”, o que por vezes não é bom, porque se misturam coisas pessoais com profissionais. Nem sempre as decisões são pacíficas. Ralhamos, discutimos e cada um defende aquilo que acha melhor para a empresa, mas sempre em prol desse objetivo comum, que é o bem do Grupo.
Depois também temos pessoas que aqui trabalham há muitos anos e por quem temos muita estima. Essas pessoas fazem parte de outra família, que é a família Auto Júlio.
P: É importante terem funcionários motivados por existir essa relação?
R: Sim, isso é essencial. Fala-se muitas vezes em mim ou no meu pai, mas o sucesso é de todos. Vem de cima e vem de baixo. Todas as pessoas empenham-se e vestem a camisola. E o sucesso vem muito dessas pessoas.
P: Como vê o futuro do Grupo?
R: Tudo leva a crer que vamos continuar a crescer, mas eu não tenho uma bola de cristal. Nós trabalhamos todos os dias, temos uma posição sólida e os pés bem assentes na terra. No entanto, há que ter em conta o mercado e o país do qual fazemos parte. Há fatores que nós não dominamos.
O que nós fazemos é trabalhar para que o futuro seja risonho e para transmitir segurança às pessoas que aqui trabalham. É importante que saibam que podem contar com o seu vencimento ao final do mês, a tempo e horas.
Depois do investimento na Alferpac, também seria bom que houvesse uma pausa para respirarmos, para não estarmos sempre a pedalar mais. Mas de cada vez que dizemos isto, aparece um novo desafio.
P: Essas oportunidades aparecem devido à boa situação financeira do Grupo?
R: Sim e para isso é preciso muito trabalho. Quanto mais sólidos estamos, mais oportunidades surgem.
P: Há cinco anos o seu pai já falava em reformar-se. Vê-se à frente do grupo?
R: Isso não é verdade. Não se pode acreditar quando o meu pai fala em reformar-se.
De qualquer forma, à frente do Grupo já eu estou, porque sou o administrador executivo e o meu pai vai ter sempre o seu lugar de presidente do grupo.
Como filho também não gostava que ele parasse, tendo em conta a sua personalidade.
P: Mas acha que poderá vir a ser presidente do Conselho de Administração do Grupo?
R: Não tenho essa ambição, sinceramente. Isso não me preocupa nada. Penso mais em reformar-me do que nisso.
P: Mas sente-se realizado profissionalmente a trabalhar no Grupo?
R: Sim, claro. Sinto-me realizado profissionalmente. Sobretudo pelos resultados obtidos, porque sei bem como é que eles foram conseguidos.
P: Sente orgulho naquilo que conseguiu para a empresa?
R: Sim, não vou estar com falsas modéstias. Acho que tenho tido uma influência muito grande no crescimento da empresa.
P: E em relação aos seus filhos, acha que eles poderão seguir os seus passos na empresa?
R: Tenho três filhos. Um com dois anos, outro com 11 e o mais velho tem 16 anos.
Eu não os vou influenciar em nada. Essa é uma opção que compete a eles tomar.
O que eu vou tentar é que eles deem valor ao trabalho e que tenham outros valores importantes. Agora se é na Auto Júlio que vão trabalhar ou noutra empresa qualquer, a decisão será deles. Eles vão escolher o seu próprio caminho. Acho que é muito mau empurrarmos os filhos para o que os pais acham que está certo. A vida é deles.
Em relação ao meu filho mais velho, já tem de trabalhar durante parte das férias de Verão, porque acho que isso lhe faz bem e três meses de férias é prejudicial.

Comentários

Escreva um comentário

Os comentários são moderados