“Tenho tido uma gestão realista que me deixa tranquilo” - António Júlio Guedes de Sousa

Há 30 anos, quando criou a Auto Júlio, António Júlio Guedes de Sousa nunca imaginou a dimensão que a empresa que iria alcançar. Tinha então 37 anos e fez uma aposta arriscada, que deu origem a um sólido grupo com uma faturação de 80 milhões de euros (em 2016).
Com certeza que me sinto orgulhoso de aquilo que fiz. Ainda não sei onde vamos chegar, mas prevê-se um grande crescimento”, realçou nesta entrevista.
Sempre cauteloso, não deixa de estar esperançoso no futuro do Grupo. “Este ano temos ainda mais uma possibilidade de voltar a crescer, como nunca”, afirma.P: Quais são os sentimentos por estar a celebrar os 30 anos da empresa?
AJ: Quando estamos em baixo queremos vir para cima. Quando chegamos cá acima, pensamos se tudo valeu a pena.
Com certeza que me sinto orgulhoso de aquilo que fiz. Ainda não sei onde vamos chegar, mas prevê-se um crescimento muito grande.
Agora sinto-me bem, sinto-me tranquilo. Tenho tido uma gestão realista que me deixa tranquilo. Isso é o mais importante.
 
P: Quando criou a empresa, em 1987, foi um grande risco pessoal que correu na altura?
António Júlio: Foram as circunstâncias que me levaram a criar a empresa. O local onde eu trabalhava estava com dificuldades financeiras e acabei por ser “empurrado” por algumas pessoas a dar este passo. Uma das pessoas que quis que eu avançasse foi o representante do importador da Mitsubishi.
 
P: Que idade tinha nessa altura?
AJ: Tinha 37 anos. Já tinha alguma experiência profissional, mas não era neste ramo. O meu curso é de montador eletricista. Fui comercial de tratores agrícolas, depois passei para as carrinhas e, mais tarde, para os automóveis.
 
P: Tinha vontade em ter a sua própria empresa?
AJ: Eu já tinha tido uma empresa minha, só que as coisas não correram bem e tive de a vender para poder pagar aos fornecedores. Por isso, já sabia que ser empresário era “comer o pão que o diabo amassou”.
 
P: E agora, sente-se orgulho daquilo que criou?
AJ: Sim, sinto-me orgulhoso pelo caminho que percorri. Se o meu pai fosse vivo, ele teria bastante orgulho em mim.
Faria tudo para que ele visse o que consegui e também gostaria de o levar ao Brasil, porque era o sonho dele, ir viver para aquele país. Ainda por cima, temos alguns negócios no Brasil.
O meu pai e a minha mãe eram pessoas muito humildes e muito trabalhadoras.
Não foi fácil chegar onde chegámos. Somos uma das maiores empresas do distrito de Leiria.
 
P: Há cinco anos anunciou, numa entrevista, que já tinha data para se reformar, mas isso não se concretizou. O que o motivou a continuar?
AJ: Infelizmente ainda não foi possível. Só o meu filho é que está a trabalhar na empresa. Uma das minhas filhas está a trabalhar em Lisboa e a mais nova está em Barcelona a fazer um estágio.
O grupo está entregue apenas a mim, ao meu filho e à minha esposa. Ainda não quero que fiquem a gerir tudo sozinhos.  Juntos somos mais fortes.
 
P: Isso porque quer que a gestão do Grupo se mantenha na família?
AJ: Também não estou a ver quem possa vir de fora e investir na Auto Júlio.
 
P: Quais são as vantagens e desvantagens do Grupo ser uma empresa familiar?
AJ: Há sempre desvantagens numa empresa familiar. No nosso caso, há dois tipos de relacionamento que temos: um como pai e filho, e outro como gestores. Às vezes chocamos como empresários, e de que maneira, o que se reflete na relação pessoal. Mas os bons resultados estão à vista.


 


P: Apesar da crise mundial e nacional ter afetado tanto o setor automóvel, o Grupo manteve sempre a sua estabilidade financeira e tem continuado a crescer?
AJ: Financeiramente a empresa sempre esteve bem. Eu nunca deixei de dormir por ter problemas financeiros.
No entanto, preocupo-me sempre que as coisas possam não correr tão bem no futuro. Ninguém tem o seu destino nas mãos.
 
P: O Grupo tem diversificado  as suas áreas de intervenção. Foi sempre essa a sua aposta?
AJ: Sim, foi sempre. Acontece muito um negócio estar em alta e depois ficar em baixa. Nós conseguimos encontrar um equilíbrio nos vários negócios que temos.
Nós trabalhamos com grandes empresas, como a Petrogal, a EDP, a Mitsubishi e outras assim. É muito difícil trabalhar com essas empresas. Eles não mantêm nenhuma relação pessoal. No dia em que um cliente não pagar, fica logo sem o produto. Eles não querem saber de quem é a empresa e o motivo de não poderem pagar. Às vezes basta haver um problema informático no banco e o pagamento não ser feito para que isso aconteça.
 
P: Mas o facto da vossa situação financeira ser tão sólida faz com que tenham um tratamento diferente?
AJ: Sim, tratam-nos de uma maneira diferente, mas no fundo eu sei que se as coisas não corressem bem, seriam os primeiros a “abandonar o barco”.
 
P: No entanto, uma das principais características do Grupo é serem uma empresa de afetos?
AJ: Sim, é verdade. Até porque há um provérbio que diz: “as boas contas fazem os bons amigos”.
 
P: Ao longo de todos estes anos fez bons amigos entre os seus clientes?
AJ: Sim, tenho muitos clientes que são agora grandes amigos, que vestem a camisola da Auto Júlio e de quem eu sinto as dores quando têm problemas.
Quando as relações humanas são boas e honestas, isso tem muitas vantagens. A partir de uma certa altura as questões financeiras passam para segundo plano. Em primeiro lugar está a relação pessoal.
Agora quando eu vou visitar as empresas dos meus amigos não estou interessado em falar de negócios. Vou é falar como amigo.
 
P: Como é o seu dia-a-dia profissional atualmente?
AJ: Agora já me dou ao luxo de entrar um pouco mais tarde na empresa. Antigamente era o primeiro a entrar e o último a sair.
Quando não tenho um compromisso, chego depois das 9 da manhã, às vezes às 9h30. Normalmente às oito da noite estou em casa. Mas, por exemplo, amanhã tenho um compromisso em Leiria às 9h00 e estarei lá a essa hora.
 
P: O Grupo é uma grande família? Mantém-se esse espírito mesmo com o seu grande crescimento?
AJ: Sempre tive uma boa relação com os meus funcionários. Não é por acaso que a maioria estão connosco há 30 anos ou há 10 ou 20 anos. Nós não trocamos de funcionários como quem troca de camisa. Damos-lhes várias regalias, como terem almoço na cantina por 2,5 euros e pagarmos 6 euros de subsídio de almoço. Temos as melhores condições possíveis para todos. Nem sequer temos um sistema de controlo rigoroso das horas que entram e saem.
 
P: Acha que saber escolher as pessoas certas para trabalhar consigo é uma caraterística importante que tem?
AJ: Sim, mas há algumas diferenças. Há aqueles que foram “criados” connosco e outros que vieram de outras empresas. Os mais antigos são aqueles que mais vestem a camisola do Grupo Auto Júlio. São esses o “motor” real do Grupo.
Quando estive recentemente nos Estados Unidos, conversei com um emigrante português e disse-lhe que o mais difícil de uma empresa é saber gerir as relações humanas. Tudo o resto se pode resolver.
 
P: Como foi a sua viagem aos Estados Unidos para o 34º aniversário da Associação Regional Caldense?
AJ: Vim de lá muito sensibilizado e satisfeito com o que encontrei. Quando falamos dos emigrantes nem sabemos o amor e carinho que eles têm por Portugal.
 
P: Alguma vez pensou em emigrar?
AJ: Sempre foi esse o meu projeto, mas nunca chegou a acontecer.
 
P: Acha que para os portugueses empreendedores é mais fácil triunfarem no estrangeiro do que em Portugal? Não há muitos casos como o seu.
AJ: Há uns anos havia uma certa área política que falava dos empresários como exploradores. Eramos apelidados de tudo e mais alguma coisa, mas depois também queriam empregos. Só que sem empresários também não há postos de trabalho.
De qualquer forma, atualmente é muito mais difícil para alguém aventurar-se a ser empresário.
Fala-se muito em empreendedorismo, mas quando se tenta criar alguma coisa, só aparecem é impedimentos e processos burocráticos. Todos metem o pé em cima, até os bancos.
 


P: Há 30 anos teve apoio da banca?
AJ: Na altura pedi emprestado ao banco 60 mil contos (300 mil euros) e o gerente do banco deu ordem para me passarem o cheque. Hoje em dia, para pedir essa verba tinha de levar a sogra, o gato e o periquito, e deviam demorar um ano para ter esse dinheiro.
Antigamente essa gestão fazia-se localmente e agora são apenas empregados de balcão, sem qualquer poder sobre nada.
 
P: Ao longo da história do Grupo quais foram, para si, os momentos mais importantes?
AJ: Foram bastantes. Um deles foi quando acabei de pagar uma dívida à Caixa Geral de Depósitos. Penso que esse momento terá sido o mais importante.
Depois foram muitas coisas, de vários investimentos que fizemos. Nem vale a pena enumerá-los. Também houve alguns receios, tristezas e desilusões. Não foram só vitórias. Passei alguns maus momentos, por exemplo na Gâmbia. A minha história também é composta por algumas derrotas.
 
P: Há 30 anos, alguma vez imaginou que a empresa que criou ficasse com esta dimensão?
AJ: Não, nunca me passou pela cabeça que atingíssemos esta dimensão. Nunca achei que poderíamos ser uma das maiores empresas do distrito.
 
P: Até porque, durante este período, houve grandes empresas locais que desapareceram?
AJ: Quando eu comecei a minha atividade havia grandes empresas como o Abílio Flores, a Secla e a Thomaz do Santos, entre outras. Hoje em dia só resta a Thomaz do Santos.
Houve várias razões para isso, como a entrada de Portugal na moeda única e outras conjunturas nacionais e internacionais. Algumas empresas também sofreram por não se modernizarem e não fazerem nada para crescer.
 
P: Como vê o futuro do Grupo?
AJ: Este ano temos ainda mais uma possibilidade de voltar a crescer, como nunca. Penso que os objetivos vão ser superados.
 
P: Está entusiasmado com a compra da Alferpac?
AJ: Sim, mas essa é uma aposta a longo prazo.
 
P: A área dos combustíveis continuará a ser uma das grandes apostas do Grupo?
AJ: Sim, vai continuar a ter um grande peso no Grupo e penso que poderá vir a crescer ainda mais.

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